Arquivo do mês: dezembro 2010

 

 

“Eu sempre achei que o amor, que o grande amor fosse incondicional… que quando houvesse um grande encontro entre duas pessoas tudo pudesse acontecer… porque se esse alguém fosse o grande amor, ele sempre voltaria triunfal, mas nem todo amor é incondicional… acreditar na eternidade do amor é precipitar o seu fim porque você acha que esse amor agüenta tudo, então de um jeito ou de outro, você acaba fazendo esse amor passar por tudo… um grande amor não é possível. E talvez por isso é que seja grande. Para que nele caiba o impossível.”

 

– Extraído do programa: “Afinal, o que querem as mulheres?” – Rede Globo.


Algum nome…

Algum nome eu tenho que dar…
Não, não é mais amor, faz tempo…
Nem ódio, nunca conseguiu ser…
Tem falta, mas não só.
Tem mais. Muito. Muito mais.
Tem suor, tem lágrima…
Fotos, cartas, perfumes…
Tem músicas, muitas músicas…
Letras perdidas, mensagem subliminares, vontades vagas.
Não tem contato, nem toque, mas tem consistência.
Não tem verdades, mas não é de mentira.
Tem passado, não tem futuro. Nunca teve.
Mas, afinal, que nome? Que nome eu posso dar?

É de chumbo, cheira sangue, mas pode ser branco como a paz, e doce como o amor.

Mas não é paz, nem amor.

É tenso e ordinário.

É vergonha, é disputa, cretinice, fuga, sonho, melindros, jogos, conquistas, gemidos, sombras, carinho, respeito, desrespeito, pele, fome, causa, resposta, silêncio, grito, sede, enjôo, briga, cisma, luxúria, caso, descaso, quente, gelado, amargo, hediondo, preto, branco, vermelho, azul, vivo, eterno, morto, cruel, perto, hoje, longe, nunca, dois, um, três, zero, barato, caro, sagaz, frouxo, crime, vontade, aventura, paixão, inflamável, recorte, visceral, estranho, chato, bom, cansado, íntimo, simples, desorganizado, amargo, ontem, talvez, quando, onde, sábio, louco, fugás, pretencioso, real, fictício, problema, cama, luz, noite, bar, som, rasgo, cego, vasto, infausto, despudor, tímido, vago, intenso, medíocre, tenro, patife, alma, reflexo, pesado, palavras, corpo, temor, dependência, cheiro, liberdade, olhos, sexo, complicado, desonesto, sincero, lento, devastador, animal, relíquia, maldição, química…

Quando todos os nomes se esgotarem, e lá no final, no fundo de um nada sem cores, e sombras, após o todo se acabar por sentidos que não definirão mais nada, eu serei só, e entenderei por fim, que qualquer palavra será quase nada, talvez, completamente nada, e que nome algum, nome qualquer nesse mundo exista pra isso.

Talvez eu precise esgotar o mundo, destruir todos os sentidos, acabar as idéias, massacrar os conceitos, para ao expremer a última gota, do inexplicável, eu entenda de uma vez por todas, que está para além do nominável.

E que palavras são feitas de um material muito mais pobre do que o dos gemidos, e que certas comunicações não precisam de sons, nem idéias… Talvez de língüas e nada mais. Talvez nem isso. Talvez imaginação, ou nem isso. Talvez memória. Talvez intuição, talvez resquício, talvez mistério, talvez resposta. Talvez nada.

E que a distância em vez de inimiga, seja componente. Demonstrativo da resistência que certas forças podem conter. Fotografia de uma permanência que está atrás do sentido das letras, e muito, muito além, do longínquo mundo dos sentidos.

Como numa extratosfera envenenada de amor, entorpecida de um inexplicável… Que faz cócegas à alma, esquenta os pensamentos, e motiva os passos… Seguindo em frente, no nada. Em algum lugar eu devo estar.

Vou me achar.


O amor acaba – crônica de Paulo Mendes Campos

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova York; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.


1, 2, 3… ‘Textando’!

Meu bom espaço…. Quero que seja meu amigo, meu confidente, minha testemunha, meu momento, minhas verdades…. Crio sem um propósito específico, sem qualquer modelo ou proposta. Basta que seja meu.. Meu espaço, desabafos ordinários, pensamentos desenfreados, comentários vagos, qualquer coisa… É meu, entende, meu espaço! Assim como eu, um mundo inexplicável, de sentidos delicados, de pensamentos imensuráveis, de uma força inesgotável…

Esse depositário, essa página, esse meu mundinho particular… Assim como eu, feito de palavras, mas sem que qualquer palavra o diga o que é…… Somos assim… Eu e ele, meu mundo, meu espaço… Eu e ela, minha livre expressão… Que, por fim, não cabemos em resumos, e provamos o inesgotável num só mergulho de olhos fechados.