Arquivo do mês: janeiro 2011

O relacionar-se.

Vem o tempo escorregadio, que nem se sente passar, ou que passa tão ligeiro que se parece ter mais, dentro do pouco que correu.

Normalmente são duas almas. Dois espíritos. Dois corpos, dois corações. Muitas fantasias. Algumas expectativas. Pode ser que haja mais de dois. Haja um terceiro à sombra do espetáculo.

Algum encontro. Deve-se começar num olhar. Curioso, no mais simples dos gestos, pode começar o tudo que fala por uma vida inteira talvez. Nos olhos a comunicação começa, a química resolve acontecer. Mas não se limita ao visual. Sempre há aquela palavra de efeito. Um clima se faz. Uma sintonia, como dois cabos conectados e uma luz de repente, plim, acende! Agora ondas magnéticas pulsam numa direção, opostos complementares. Da direita pra esquerda, da esquerda pra direita. Pororoca. Encontro. Colisão.

O tempo, aquele que é efêmero em sua passagem, confunde-se também. Estranhos, amigos, qualquer coisa. Agora, homem e mulher.

Salivas se correspondem, perdem identidade. Aquela velha história de dois se fazerem um, começa já. No beijo. Mais tarde no corpo, no suor. Mas antes de tudo, no beijo.

É nesse primeiro momento que se decodifica o entrosamento. Se o beijo bateu, acredite mais na vontade. O contato se mede passo a passo, e quando o beijo é acertivo, todo o resto promete.

Partimos à tecnologia, Graham Bell e a tão antiga invenção. Alguns números, sem qualquer matemática, a seqüência da felicidade. Ligar, conversar, marcar, e se parte para o novo momento: A repetição. Só se repete o que se gosta. Já é um sinal.

Um bom encontro, agora com mais vontade, ou mais certeza. Talvez mais expectativa, talvez mais receio. É a fase dois, um passo a mais. A desculpa do encontro pode ser qualquer uma. Uma cerveja, uma pizza, um filme, uma dança, um pôr-do-sol… Tão efêmero quanto o tempo. Tanto faz.

O banho do encontro é especial. O perfume, a roupa, os adornos. Tudo aparentando simplicidade que é pra impressionar sem querer impressionar.

As conversas, as verdades, as mentiras, as compatibilidades, o charme, o sorriso, o toque, o abraço, o beijo, o combinado do dia seguinte. Pronto, engrenou uma história.

O chegar em casa com felicidade, a barriga que formiga, o sono que não quer vir. A mensagem no celular que se quer enviar, o telefonema que prefere esperar, os amigos que precisam saber…

De repente se torna hábito falar três, quatro vezes ao dia. De repente há a necessidade de se ver mais, mais, mais… De repente se quer, se deseja, se tem, se entende, se adora, se precisa. De repente é. Inexplicavelmente, de repente há pertencimento, não social, mas exclusivo. Você pertence a um outro indivíduo, e ele te pertence. Ou pelo menos é assim que acaba se sentindo.

E agora você não decide mais se vai aceitar ao convite de uma festa sem consultá-lo, e tem que ver se vai viajar nas férias com a família ou se vai acompanhá-lo em não viajar, já que vai ter que trabalhar. E começam as concessões, talvez a maior das provas de amor. Cede-se por amor, cede-se por lealdade, cede-se por companheirismo. Cede-se também, e mais ainda, porque todo o mais não é tão interessante quanto estar pertencida ao que te pertence. Agora sim há matemática, interseção de conjuntos. Contém e está contido.

Vidas se entrelaçam de maneira substancial. Acredita-se no amor, e não há vento que ameace o castelo de areia. Por isso o choque das decepções. Não era pra ser assim, não podia dar errado. Há todo um comprometimento do inconsciente, subjugado por crenças reais de uma história que de fato acontece. Todo o mais que vá contra é falsário ou no mínimo não carrega sentido, e traz consigo a loucura do inesperado e inexplicável. Foge do controle, é só saudade, só vazio. Faltam peças e sobram perguntas. O terminado fica interminado dentro de você.

E ainda que se parta o coração em pedaços. Há todo um movimento em colar os cacos. Em reescrever a história de onde parou. Em rasurar o ponto final em vírgula. Há sempre a persistência em negar o fato. Como um esfomiado lambendo as sobras do prato, caçando o farelo do biscoito, em desespero pelo não-fim do que já acabou. A negação do encerramento é a ação mais comum no homem quando – e é quase sempre – não se sente qualquer preparo para aceitar a finitude das coisas. Talvez porque essa mesma idéia de fim remeta ao pior pesadelo do homem que é ser mortal. Almas sonhadoras, perseguidoras de histórias imortais, do oásis do infinito, que não se esgota, nem se escoa, mesmo que acabe. Seres determinados, munidos de uma mitologia que enfeitiça quando diz que há como ressurgir vida pós morte, vida pós o pó, felicidade para sempre.

Algumas vezes se reconquista o espaço, ou na verdade acredita-se assim. E se prolonga a dor, esticando o caos até seus mais extremos limites. Noutras, dói calado, enquanto a ficha cai. Qualquer um os dois tem sua valia, sua maneira de doer e de ensinar.

Finalmente quando só um resquício sobrou, uma saudade tão efêmera quanto ao tempo do começo, então se sente mais liberto para sentir-se caminhando só, sem muletas, e sem dar as mãos a outrem.

E de repente numa escada de um prédio, no meio de uma festa, no primeiro dia de aula de um novo curso, no supermercado, no trânsito, na recepção da academia…. Todo o processo resolve acontecer, e dessa vez, prometendo ser diferente, dando a idéia de ser o novo, o verdadeiro, diferente do engano anterior. E agora se é joguete de novas velhas expectativas… Talvez ainda mais exigentes, talvez ainda mais desconfiadas, e por conseqüência mais ameaçadoras.

Mas quem foi que disse que o homem tem medo de viver?

Então a gente vai lá, e aceita o encontro, marca, atende, liga, combina, encontra, vai, beija, ama, chora, concede, dança, viaja, transa, presenteia, surpreende, apresenta, dorme, come, vive junto…. De repente está mergulhado outra vez num outro universo, tão diferente, mas tão igual a outros também vividos antes. Mais uma vez contém e está contido. Mais uma vez interseção. Mais uma vez conjuntos. Mais uma vez matemática, de soma, potência, divisão, multiplicação, eqüações… E por fim, subtração ou a sensação final da frustração. E fecha o problema assim mesmo, já sabendo que há uma próxima questão pela frente……. E a gente não se cansa de viver, nem de amar.