Arquivo do mês: abril 2011

O amor de Lilith.

LILITH: Na tradição hebraica exposta no Talmud, Lilith foi a primeira mulher de Adão, mãe de demônios e gigantes, que, de acordo com as lendas, não quis submeter-se à autoridade do marido, abandonando-o para ir viver na região do ar. Esotéricamente e na Astrologia, considera-se Lilith um símbolo dos instintos animais e dos impulsos femininos e lunares mais primitivos. Está relacionada com os estímulos do inconsciente profundo.

Engana-se quem pensa que Lilith não chora a perda de seu Adão. Entre raivas e rugidos de um temporal humano, aquela louca mulher se esvai junto das saudades que fogem os poros. Seu corpo que não se deita mais, que não divide mais a mesma cama que Adão, não é um corpo tão livre como parece. Ela é Lilith, é traço do que é da selva da mulher, em estado bruto, é mulher, e não irá morar nos recônditos que reduzem a sexo frágil o complexo fenômeno de ser fêmea. Ela é Lilith porque goza. É Lilith porque vibra. É Lilith porque deseja, comete, e rompe. Não haveria espaço para aquela criatura no reino das moderadas moças de traços insossos. Não haveria moradia para aquela ânsia, para aquele suspiro, para aquela presença. Ela se vai, vaga mundo afora, e cria seus novos universos, e novas histórias. Reencarna na mesma vida, no mesmo mundo, e pincela com novas cores seu novo olhar. Sua realidade muda os móveis de lugar, mas nada além disso se transcende. Seu coração está no mesmo lugar. É Lilith, e não deixou de antes, ser mulher. É vulcão, demoníaca e perigosa aos olhares leigos e distantes, mas seu coração feminino sabe provar do doce amor, e talvez seja esse seu maior veneno. É Lilith, a verdadeira dama de Adão. Geniosa. Insustentável relação. Deu lugar a Eva, e talvez a humanidade culpe a talzinha por ocupar um lugar que não era dela. Lilith, injustiçada, sai de cena, e entre os bastidores manda sinais de alerta, e se emociona baixinho quando pensa em seu amor.

Não desampara sua feminilidade torrencial, e dá vida a seus pecados para não cometer sua infidelidade pessoal. Mas ama… Ah, como ama Adão. Injustiçada, sim. O mundo a retira da sua própria história. Os olhos fracos não tem lugar para ela. O brilho que ofusca, e cega, se apaga. E Lilith é condenada a demônio, e passa longe sua imagem do que é amor.

E quem foi que disse que Lilith não sofreu?? E quem foi que disse que Lilith foi embora querendo ir?? Quando não se sabe, feriu a si mesma, partindo do paraíso que Deus antes fizera para ela e seu Adão. Virou-se de costas, vestiu a fantasia de vilã, e cedeu seu papel à insignificância de uma Eva que não agrada e nem desagrada, atendendo assim a um medo inconsciente que os homens carregam daquela mulher maciça, carregada da matéria prima fêmea.

Lilith assustou Adão. E o eco se propagou. Ela hoje assusta o mundo, e dita diabólica, é rechaçada de sua própria história, não vive seu próprio amor, e nem conhece seu final feliz.

Paga preço caro, por ser cara. Seu custo está na sua pessoa. Mulher de atos fortes, perdeu seu amor, e por sua força, deram-lhe incumbência mais difícil. Segue agora transformando-se. Oscila entre o mal e o real. Não é uma coisa, nem outra. Não se trata de bondade, nem de maldade. Sua questão está para além da realidade ou da fantasia.

A questão é que Lilith amou. Sofreu, padeceu. Lilith antes de demônio é mulher. E Adão, antes de Eva, pertencia a ela. A história dá seu nó. O rumo é tomado. E não importa sua coerência, nem com quem está a razão. Interpreta-se, condena-se, segue-se.

Lilith está longe de Adão.

O paraíso caiu. A Babilônia se fez. A maçã foi mordida.

Adão foi infeliz com Eva. E se Caim matou Abel, é porque nada disso foi fruto de um amor verdadeiro.

Mas agora é tarde demais. Lilith já caiu na sombra da humanidade. Adão já não a reconhece mais como sua mulher. Eva já tornou-se matriarca do mundo. E a vida é uma grande confusão.